09/05/09

Pequeno ensaio sobre mães e filhos

Pequeno ensaio sobre mães e filhos: transcendendo o fatalismo da morte


Ser mãe é uma relação existencial entre ela e um ser que não é seu, um ser tão somente daquele ser. Ser mãe é ser anfitriã: permite de suas entranhas o desenvolvimento de um novo corpo que servirá de instrumentum para o seu hóspede viver neste mundo. Ela cuida, alimenta, ampara, educa este utensílio até que a pessoa espiritual por si só esteja madura e autônoma, e o desenvolvimento do corpo mostra tal época. Assim o que quer que seja dado pelos pais é um presente.

Se uma mãe não foi fonte de inspiração e respeito aos filhos, ou qualquer motivo que fizera algum filho ou filha estar ligado com o pai, avós paternos ou maternos, ou algum parente e menos com a mãe; um fato é incondicional em si mesmo: o ensejo de renascer neste mundo foi doado. No mais, somos seres distintos, entes espirituais autônomos. São falsas pressuposições aquelas de deveres dos pais em relação aos filhos.  

Nesta relação existencial podem-se firmar laços grandiosos de amor e sentimentos de consideração entre aquele ser que ela cuidou nos dias de sua vida. O vínculo terreno fica sobrepujado por um elo que se liga alma com alma, e da relação entre mãe e filho(a) desabrocha uma profunda amizade.

_

Aqueles que amam profundamente alguém ido – por exemplo, a mãe, assim como aqueles que conheceram uma pessoa querida pela internet e são capazes de sentir o íntimo da pessoa amada mesmo a distâncias geográficas, reconhecem inabalavelmente uma certeza: a pureza e a profundidade de nossos sentimentos transcendem espaço e tempo, e a proximidade física. E com clareza intuem: ‘quantos estão perto fisicamente, mas distantes no coração?’.

Assim como o exposto acima, nem o sofrimento, nem o desespero e a subumanidade fizeram com que o psicoterapeuta Viktor Frankl, que vivenciou pessoalmente a situação reinante num campo de concentração, sentindo nua e cruamente a radical insignificância a que se reduz o valor da vida humana, deixasse que o amor se revelasse para ele como o bem último e supremo do existir. É nestas vivas linhas que ele expressa o seu amor pela esposa: “Naquele momento, fico sabendo que o amor pouco tem a ver com a existência física de uma pessoa. Ele está ligado a tal ponto à essência espiritual da pessoa amada, a seu ‘ser assim’ (nas palavras dos filósofos), que a sua ‘presença’ e seu ‘estar-aqui-comigo’ podem ser reais sem sua existência física em si e independentemente de seu estar com vida. Eu não sabia, nem poderia ou precisaria saber, se a pessoa amada estava viva. Durante todo o período do campo de concentração não se podia escrever nem receber cartas. Mas isso, naquele momento, de certa forma não tinha importância. As circunstâncias externas não conseguiam mais interferir no meu amor, na minha lembrança e contemplação amorosa da imagem espiritual da pessoa amada. Se naquela ocasião tivesse sabido: minha esposa está morta – acho que esse conhecimento não teria perturbado meu enlevo interior naquela contemplação amorosa. O diálogo espiritual teria sido igualmente intenso e gratificante. Naquele momento, apercebo-me da verdade: ‘Põe-me como selo sobre o teu coração (...) porque o amor é forte como a morte’ (Cantares 8,6)”.

Realizam-se heroísmos interiores para suplantar a saudade por uma pessoa querida, seja a saudade causada por um motivo fatalista (alguém que já morreu) ou pela distância que os separam. E mesmo que as duas causas mencionadas anteriormente – a morte e a distância geográfica – sejam obstáculos para a proximidade, mas nunca são para a expressão dos sentimentos mais sublimes por alguém!

Nestas condições de privação e impulsionado pelo sentido do amor, o ser humano mostra sua capacidade de transcender estes condicionamentos: a força interior que o perpassa, o sentimento intuitivo de pureza por ansiar algo grande pela pessoa querida, proporciona-o capacidade de realizar atos de vontade grandiosos e expressar genuinamente seus sentimentos. Aquele que dá algo também recebe, e aqui a lei da compensação cumpre sua finalidade irretorquível: a pessoa que se esforça em ser sincera e pura nas suas expressões para o ser amado, também perfuma seu ser com pureza e sinceridade! Do mesmo modo como para as rosas, nos versos de Judith Junqueira Vilella, os mesmos fatos se dão com o que discorremos acima: Fica sempre/Um pouco de perfume/Nas mãos que oferecem rosas/Nas mãos que sabem ser generosas. /Dar do pouco que se tem/Ao que tem menos ainda/Enriquece o doador/Faz sua alma ainda mais linda. /Dar ao próximo alegria/Parece coisa tão singela/Aos olhos de Deus porém/É das artes a mais bela./Fica sempre,/Um pouco de perfume/Nas mãos que oferecem rosas/Nas mãos que sabem ser generosas.

Se há uma forma eminente de mostrar nossa total consideração por alguém que partiu, e especificamente por uma mãe que nos imprimiu tantos ensinamentos sobre o comportamento e a vida, enfim, dentro da sabedoria que ela podia proporcionar com suas palavras e com seu exemplo de conduta, é evocar em nosso modo de ser estes valores ensinados. Tornar-se-ão partes adstritas de nosso espírito.

Aquilo que somos é o primordial para nossa real condição humana, todo o restante é aspecto acessório, secundário, está entregue ao efêmero, enquanto os valores do ser são dotes do espírito. Só o espírito, o eu genuíno do ser humano, é eterno, assim, somente valores eternos tem valor para ele. Desta forma é genuinamente realizado o filho ou filha que recebeu como herança materna os valores do ser, pois ele vai “estar sendo” estes princípios no mais profundo de seu íntimo, até depois da morte, enquanto a herança material, pensões, bens, servem apenas passageiramente.

E não apenas corporificar os ensinamentos recebidos, mas enobrecê-los através do anseio por saber espiritual. Evoco a aspiração ao enobrecimento, porquanto além de por si só ser um embelezamento a estes princípios maternos, com a aspiração pelas coisas eternas e espirituais podemos dar formas mais puras e amplas ao que nos foi legado. Esta dedicação é a prova mais real e existencial da valorização daquilo que uma mãe presenteou.

Resta-nos assim, a abordagem de outro aspecto. Mesmo que a mãe não se encontre mais presente, tendo partido cedo do convívio, e há tempos atrás estavam em todos os lugares, e as vivas recordações trazem aqueles fatos mais simples e cotidianos que queimam na memória: no sofá da sala vendo TV, na varanda cuidando das flores com toda a dedicação, e que as conversas, os sorrisos e as canções cantadas eram as mais especiais; um fato é irretorquível: ela não se encontra encerrada entre as pedras, e nem se extinguiu com a decomposição do corpo como uma chama a um sopro fatal, seu eu espiritual vive!

A morte não é a dissolução de tudo. Há um diálogo de Sócrates, onde o filósofo mostra com toda a singeleza o fenômeno da morte: “Nada mais do que a separação da alma e do corpo, não é? Estar morto consiste nisto: apartado da alma e separado dela, o corpo isolado em si mesmo; a alma, por sua vez, apartada do corpo e separada dele, isolada em si mesma. A morte é apenas isso? — Sim, consiste justamente nisso”.

É, consiste justamente nisso. O corpo ocasional se esvai, e a alma continua sua vida no Além. A um ser querido que não esteja mais entre nós, desejemos que encontre par e passo novos reconhecimentos, a superação dos erros, e com a alma leve, possa transcender os patamares até chegar ao ápice: o Mundo Espiritual.





Brunnus Reqqiem


5 comentários:

Ana Jácomo disse...

Meu querido, que beleza de texto! Belo, porque profundo. Belo, porque amoroso. Belo, porque diz - e diz muito - ao coração de quem vivencia, à flor do espírito, essa simplicidade (a complexidade é só aparente) dos encontros de puro amor.
Lembro do que disse, mais ou menos assim, Richard Bach em seu livro "Longe é um lugar que não existe": "Se você quer estar com alguém que ama, você já está lá."
O perfume do outro segue com a gente e essa é apenas mais uma das maneiras que a Vida tem para nos contar que todo perfume é muito mais além do que o frasco que momentaneamente, aqui e ali, o abriga. :)
Parabéns pelo texto!
Beijos da amiga.

Anônimo disse...

Parabéns pelo texto, amigo. Lindo, tocante e reflexivo... É de uma sensibilidade tão grande. "A morte não é a dissolução de tudo" é uma continuidade. Obrigada por compartilhar conosco.

Beijos, Elaine. =)

Alma Lusa disse...

Caro amigo
Guardo o sentimento da leitura deste texto que me tocou. O Amor liga para além do "falecimento", porque para além existem caminhos que temos que percorrer, todos nós, e bem aventurados os que por lá caminharem. As palavras de Sócrates, como todo o seu pensamento, estão adequadas desde a antiguidade... o caminho segue em direcção ao Altissimo, em direcção à Pátria!
Um abraço.

Anônimo disse...

muito beem Bruno,esta de parabens *-*
Lis

philosofiaevida disse...

Amei o texto pois sei que minha mãe está junto à minha avó neste momento com suas almas unidas para além deste plano material.
Faz apenas uma semana que ela nos deixou mas está feliz junto à sua mãe que com certeza está penteando seus lindos cabelos no mundo espiritual.