Finalmente pensar em si mesmo?
Procurei Deus
e não o encontrei.
Procurei a mim mesmo
e também não me encontrei.
Procurei o meu próximo
e encontrei - todos os três.
(Talmude)
As personalidades mais merecedoras de admiração são aquelas que se dedicam a um ideal a ponto de esquecerem-se de si próprias. As pessoas que alcançam maior êxito são aquelas que não se preocupam de maneira alguma com o sucesso, mas que têm os olhos voltados para uma meta com sentido e a ela se dedicam.
Um dos meus pacientes recuperados escreveu-me uma carta de agradecimento com estas palavras reveladoras: "Desde que comecei a olhar com indiferença as coisas que antes me pareciam importantes, o sucesso como que corre atrás de mim..." . As pessoas mais felizes são aquelas que não desperdiçam o mínimo pensamento com a esperança de uma felicidade, mas que se entregam inteiramente à alegria do momento. Quem vai atrás do sucesso e da felicidade, inevitavelmente corre atrás do vazio – ou, como expressou Frankl: a "vontade de poder" é um obstáculo no caminho, da mesma forma que a "vontade de prazer". Mas aquele que procura a "coisa em si", que espera, que conquista, que suporta... esse alcança, por acréscimo, o êxito e a felicidade.
Soube do caso de uma enfermeira, já de mais idade, que exercia devotadamente sua profissão e, além disso, sempre conseguia fazer em favor dos enfermos alguma coisa a mais, não prevista por sua função. Os inúmeros plantões haviam deixado marcas em sua face, e o constante vai-e-vem colaborara para que suas costas ficassem encurvadas; mas, quando se tratatava de perseverança, energia e bondade, ela superava as auxiliares mais jovens do seu setor. Um dia, as enfermeiras da casa foram convocadas a participar de aulas semanais de supervisão. Deveriam manifestar ao supervisor quais os conflitos não-superados com que se defrontavam em seu trabalho de cada dia. Deviam também confessar umas às outras os sentimentos de inveja, antipatia ou ciúme que as acometiam. Quando aquela enfermeira mais velha foi de opinião que essas aulas de supervisão eram supérfluas e disse que seria melhor se esse tempo fosse dedicado aos enfermos, chamaram-na de neurótica, e ela foi considerada como o exemplo típico de pessoa que sofre de uma "síndrome de ajuda", que é levada compulsivamente a imaginar que precisa ajudar outras pessoas. A enfermeira foi delicadamente forçada a submeter-se a um tratamento psicoterápico. Durante o tratamento, o currículo da enfermeira foi meticulosamente analisado em busca de desenvolvimentos neuróticos, sendo atribuída grande importância ao fato de ela haver permanecido solteira e de viver em casa sem marido. Quando ela declarou que seu noivo havia morrido na guerra e que desejava preservar a memória dele permanecendo solteira, foram diagnosticados complexos sexuais que a teriam levado a buscar uma satisfação substitutiva no trabalho. A enfermeira não quis aceitar isso. Ela dizia simplesmente que seu trabalho com as pessoas sempre lhe havia trazido alegria, mas essa resposta foi interpretada como mais uma prova de perturbação psíquica. O ponto crucial da terapia foi quando ela terminou sendo duramente advertida para que deixasse de pensar unicamente nos outros e começasse a pensar em si mesma.Teria que pesquisar suas necessidades mais íntimas e refletir sobre seus sonhos mais secretos, a fim de descobrir qual a satisfação que mais fortemente a impelia. Com tantas especulações sobre si própria, a mulher ficou inteiramente confusa e, então passou a duvidar de todas as suas ações e motivações anteriores. Afligiu-se, tornou-se reservada e fechada, deixou de sorrir para os doentes de seu setor e de infundir-lhes ânimo. Para ela tudo era suspeito de ser "expressão de complexos inconscientes", e, quanto mais remoía sobre seus próprios motivos, tanto mais sua vida passava a lhe parecer triste e desperdiçada. Foi acometida de melancolia, interpretada como sendo uma "depressão neurótica", e não demorou muito para surgir a questão de saber se ela ainda estava em condições de trabalhar na clínica ou se não seria melhor que se aposentasse, pois então haveria de ter mais tempo para si própria do que sob uma permanente carga de trabalho. A enfermeira não desejava deixar de trabalhar antes do tempo, mas, em sua letargia e insegurança, cedeu às pressões. No entanto uma pessoa que durante décadas havia sido útil para outras, encontrando nisso sua realização pessoal, não se recupera quando de repente passa a ficar sozinha em casa refletindo sobre si mesma, sem ser útil a ninguém e sem uma ocupação que em si contenha sentido. Após um ano de uma vida retraída e desprazerosa, a enfermeira aposentada faleceu, sem que fosse constatada nenhuma causa fisiológica significativa. Será que ela não teria vivido mais se não tivesse se submetido a essas incompetentes sessões de supervisão e terapia? Quem sabe!
Elisabeth Lukas. Histórias que curam... porque dão sentido à vida., páginas 30-32.
4 visitas:
Afffff...
Que história triste essa.
Mas nos conduz a importantes e necessárias reflexões.
Pra mim,a morte da enfermeira começou quando ela acolheu os questionamentos errados acerca de suas ações e foi perdendo o sentido de sua existência.
Muito bacana.
Grata por compartilhar!
Será minha próxima leitura.Amei!!!
P.S. Parabéns pelo novo layout.Tudo muito lindo por aqui.
Um grande abraço.
Amiga Peregrina, obrigado pela constância aqui, pelos comentários, e por todo o carinho :)
Eis a importancia de um elevado equilibrio e capacidade em absorver coisas boas e assim fortalecer nosso espirito....
De nada adianta encontrarmos o ponto final da felicidade, se tão pouco temos a paz para desfruta-la e poder senti-la de forma a nos fazer bem.
História triste que nos faz pensar, vale a pena avaliar com clareza a frase "as pessoas mais felizes são aquelas que não desperdiçam o mínimo pensamento com a esperança de uma felicidade, mas que se entregam inteiramente à alegria do momento.."
O que será a vida?um momento apenas?
Muito bom ler este texto novamente e extrair novas concepções,e ampliar a reflexão sobre ele.
Preciso encontrar este livro por aqui em SSA.
Um abraço,amigo Bruno.
Postar um comentário